
Noite de 12 de outubro, dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida; após ouvirmos os conselhos do obstetra eu e meu marido saíamos às pressas da maternidade, o bebê que eu esperava já evidenciava sinais de que não mais demoraria vir ao mundo, eu estava na 37ª semana de gestação e por medida preventiva o médico recomendou que seria mais sensato ele nascer em um lugar com estrutura porque se apresentasse algum desconforto respiratório ou outra complicação estaria protegido. Precisávamos viajar e lutávamos contra o relógio para que desta vez tudo desse certo, ainda no interior do hospital avistamos uma ambulância, pronta para partir, dentro dela uma mulher com semblante apreensivo e no seu colo um bebê, havia acabado de nascer. Curiosos, perguntamos logo o que havia acontecido e ela cabisbaixa respondeu:
- Nasceu antes do tempo, 36 semanas, o doutor disse que precisa de uma UTI e aqui não tem!
Que pena! Era dia da criança e aquele bebê bem que poderia receber de presente a dignidade de ser assistido em sua cidade natal com tudo que tem direito para sua inteira recuperação.
Aquilo nos sensibilizou, há cinco anos havíamos passado pela mesma situação com o nosso filho que também nascera prematuro (32 semanas). Tivemos que sair da nossa cidade e peregrinar por outros municípios em diversos hospitais em busca de vaga em uma UTI Neonatal para salvar a vida do pequeno, o que não é fácil porque estas unidades estão sempre lotadas, além do que, priorizam os bebês que nascem por lá. Lamentamos muito e seguimos nossa viagem também. Naquela mesma noite coincidentemente avistamos a ambulância de Pedreiras em Caxias retornando com a mesma mulher e o bebê, soubemos no hospital que não havia vaga na UTI NEO, a maternidade Carmosina Coutinho localizada naquela cidade recebe todos os dias dezenas de gestantes; a maioria destas mulheres com procedência de outros municípios sem composição alguma na área da saúde, apenas com investimento focado na aquisição de ambulâncias para transportar seus pacientes. (Nitidamente uma forma de transferir a responsabilidade para outros municípios).
O artigo 196 da Constituição Federal garante: A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doênça e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Mas na prática infelizmente não é assim.
Já dizia o personagem Paulo Cintura da escolinha do Gugu, exibido na rede Record “Saúde é o que interessa o resto não tem pressa”. Será? Com a saúde de mal a pior o Brasil ainda ousa investir milhões de reais em uma copa do mundo e o ministério dos esportes esbanjou escândalos de corrupção este ano. O Maranhão, considerado o Estado mais pobre da confederação de acordo com a última pesquisa do IBGE, receberá uma homenagem da escola de samba carioca Beija-Flor que lembrará os 400 anos de São Luís em seu enredo de 2012, levando para a avenida a história da cidade. O tal feito custou para os cofres públicos do Estado milhões de reais. Um Estado sucateado com péssima saúde, educação e constantes greves, têm o que comemorar? Em Pedreiras a história não é diferente, não vou muito longe, o dinheiro que é gasto diariamente com combustível para o deslocamento de pacientes em ambulâncias para Caxias, Presidente Dutra e São Luís, certamente daria para estruturar um hospital com UTI adulto e neonatal, neonatologistas (profissional que se ocupa com bebês prematuros), e demais especialistas como ortopedistas com reais condições de trabalho. (Quebra-se um dedo manda-se para Presidente Dutra), a autêntica situação dos nossos poucos profissionais da saúde pode ser comparada a de um motorista parado no meio da estrada sem pneu reserva ou chave de roda, nada pode fazer! Somos sabedores que na maternidade municipal existem incubadoras isso desde a época em que a mesma tinha apenas contrato com o Município, o que falta para funcionar? Oxigênio? Especialistas? Ou boa vontade? QUE PAÍS É ESSE? Bem lembrado o polêmico desabafo de Dinho Ouro Preto, vocalista da banda Capital Inicial no Rock in Rio este ano. E ainda tem político que acha ruim quando se reclama, temos ou não razão?
Se não for feito nada urgentemente a situação pode piorar. O fato é que todos os anos, segundo o Ministério da Saúde, nascem no Brasil cerca de 3 milhões de crianças, 10% delas prematuras. Nos próximos anos, a demanda por atendimento dessas crianças será muito grande, até pelo aumento desse tipo de nascimento devido ao alto número de gestações de gêmeos, parto prematuro anterior, doença renal durante a gravidez, anatomia do útero anormal, gravidez antes dos 16 ou após os 34 anos, descolamento da placenta, quantidade anormal de líquido amniótico, fibrose uterina, pré-eclampsia, ruptura prematura de membranas, cirurgia abdominal, uso de drogas variadas (tabaco e álcool), insuficientes consultas pré-natais, gravidezes múltiplas e até mesmo fertilizações de quatro ou cinco embriões de cada vez.
Bebê prematuro é aquele que nasce antes de completar 38 semanas de gestação. São vidas formadas, seres humanos frágeis, lindos e indefesos que contam com o grito de socorro da sociedade e a consciência dos nossos representantes para se tornarem cidadãos no futuro. Quando demoram ser socorridos e sobrevivem desencadeiam seqüelas que marcam suas vidas para sempre. Este descalabro não pode continuar.
Há alguns dias, li uma sátira a respeito do nascimento de Jesus que dizia assim: “Jesus nasceu em um estábulo, sob condições precárias, mas poderia ser pior, poderia ser no SUS”. Então o pior caiu sob aquela criança que citei no início, através do SUS buscava forçosamente um leito de UTI, vagava dentro daquela ambulância de Pedreiras a Caxias de Caxias a São Luís pedindo suprimento ao mundo. Não mais soubemos notícias, mas espero que a história tenha terminado bem.
Com a aproximação do Natal que significa nascimento, luz, façamos uma reflexão sobre o que precisa ser melhorado, próximo ano teremos as eleições municipais, façamos uma análise das propostas e planos coerentes dos candidatos, desconfie de quem prometer ambulâncias. É bem-vindo um projeto claro que demonstre como funcionar de forma humanizada e estruturada a saúde que nós merecemos, já chega de sofrermos em outros municípios, nossa cidade cresce a cada dia e com ela a necessidade de uma saúde acolhedora. Já dizia a escritora Zíbia Gaspareto: ”Nossas atitudes escrevem o nosso destino, quanto mais depressa aprendermos, menos sofreremos”.






























