Com muita satisfação, a partir de hoje (10), o blog da Paróquia de São Benedito apresenta uma série de postagens sobre o trabalho do senhor Luis Mario Lula em nossa paróquia. Na entrevista dada a nós direto de Quebec, no Canadá, ele nos fala do período em que foi padre em nossa paróquia, entre 1962 e 1965, qual o contexto sócio-religioso da época, a ideia da criação do Centro de Recuperação Santa Maria Madalena e como está sua vida hoje na América do Norte. Apreciem mais esse rico e belo momento da história de nossa paróquia.
O trabalho do sr. Luis Mario Lula como padre em Pedreiras.
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| Luis Mario Lula em visita ao CRESMAM |
Seria muito pretencioso de minha parte avaliar tudo o que foi possivel realizar em Pedreiras, de fevereiro de 1962 à dezembro de 1965. Contudo, posso afirmar que este período foi para mim um dos mais ricos e importantes de minha vida, pois permitiu de me enraizar na realidade humana de Pedreiras, de partilhar muito mais, do que um pouco, da vida real das pessoas mais carentes e de viver a exclusão com as pessoas mais excluidas , a saber ,«as nossas irmãs protitutas».
Façamos um pouco de história para melhor entender o contexto, a estratégia e as circunstancias do meu trabalho em Pedreiras. Quando cheguei em Pedreiras, tive a oportunidade de servir sob a orientação e os conselhos de Mons. Gerson Nunes Freire. Não foi fácil os primeiros contatos, pois o Monsenhor Gerson era um homem severo, justo, retraido e de pouca comunicação, completamente oposto à minha personalidade mas ele era um homem de grande coração e um infatigável trabalhador. A minha primeira tarefa era de ganhar a confiança dele pois para muita gente, inclusive para os padres cooperadores que me antecederam, ele era um homem intransigente. Dificilmente ele cedia quanto às suas opiniões. Cada começo de semana, eu deveria apresentar-lhe um plano de trabalho. Ele olhava e cortava uma grande parte das atividades que eu pretendia realizar. Mas isso não era por maldade. Era uma maneira que utilizava os monsehores da época para firmar sua autoridade junto aos seus cooperadores. Este jogo não durou muito tempo comigo. Aos poucos, fui observando o que mais lhe motivava depois dos encargos religiosos. Logo percebi que uma das atividades que mais lhe trazia prazer era visitar, no seu «jipão », os terrenos que possuia ou que pertenciam a paróquia, então, com muita franqueza
e muito receioso lhe propuz o seguinte compromisso : que depois da sua missa ele poderia visitar, sem preocupação, os seus terrenos enquanto eu ficaria na paróquia durante o dia para atender as pessoas que viessem resolver mil e uma coisa. Caso eu não desse conta do recado, se voltaria à maneira anterior de funcionar. Felizmente, tudo deu certo e com o tempo fui ganhando a confiança e alargando o campo do meu trabalho pastoral. Nesta minha caminhada, como padre em Pedreiras, alguns passos poderão ilustrar a marca de minha ação pastoral e os momentos chaves que marcaram e contribuiram para minha vida atual, como pessoa humana.
e muito receioso lhe propuz o seguinte compromisso : que depois da sua missa ele poderia visitar, sem preocupação, os seus terrenos enquanto eu ficaria na paróquia durante o dia para atender as pessoas que viessem resolver mil e uma coisa. Caso eu não desse conta do recado, se voltaria à maneira anterior de funcionar. Felizmente, tudo deu certo e com o tempo fui ganhando a confiança e alargando o campo do meu trabalho pastoral. Nesta minha caminhada, como padre em Pedreiras, alguns passos poderão ilustrar a marca de minha ação pastoral e os momentos chaves que marcaram e contribuiram para minha vida atual, como pessoa humana.
Um primeiro passo foi de me entranhar nas diferentes associações existentes na paróquia (Filhas de Maria, Coração de Jesus, Legião de Maria, Vicentinos, etc) para tomar conhecimento do funcionamento de cada uma delas. Na década dos anos sessenta, graças ao Concilio Vaticano II, uma vaga de mudança pairava em toda Igreja. Não bastava apenas uma simples renovação no espírito e no coração de cada cristão. Era urgente criar as condições para uma verdadeira transformação das comunidades cristãs, em suas estruturas e nos hábitos de vida. Diante deste desafio, eu não podia ficar indiferente e confinado a distribuir simplesmente os sacramentos. E Deus sabe como esta sacramentalização infantilisou e fez dos nossos cristãos muitas vezes meros expectadores da fé. Algo diferente deveria brotar na comunidade de Pedreiras. Por isso é compreensível que o meu primeiro esforço tivesse sido de procurar abrir novas fronteiras de ação para as diferentes associações da paroquia. Elas não deveriam mais ficar trabalhando simplesmente para o aperfeiçoamento espiritual de cada membro. Elas poderiam tambem, sem abandonar sua própria especificidade, tornar-se agentes de transformação humana e social da própria comunidade na qual viviam.
Trabalhei o terreno, plantei a semente e cheguei a regá-la. Não cabe a mim dizer se esta semente nasceu e deu frutos. O importante é que contribui para o bem da comunidade de Pedreiras, com os recursos que tínha na época e com a visão da realidade humana que tenho ainda hoje.
Um segundo passo do qual me lembro ter dado foi de abrir um espaço ecumênico, onde todas as forcas cristãs, fossem elas de qualquer credo religioso, pudessem comungar o pão da palavra, partilhar o amor recíproco e praticar o respeito mútuo. Foi assim que realizei com algumas igrejas cristãs encontros ecumênicos em praça pública para reafirmar nossa união no Cristo. Para mim, a tolerância é o principio da solidariedade. Como viver numa comunidade sem a participação e a complementaridade de cada pessoa que forma esta comunidade? A vida só vale a pena ser vivida quando nos sentimos como vasos comunicantes.
Um terceiro passo foi colocar em prática a opção que fiz pelos mais pobres. Colocar no centro de minha ação a pessoa humana e sobretudo aquelas mais excluidas. Não foi assim tão fácil me lançar nesta aventura. Apesar de ter minhas origens na pobreza a formação recebida no seminário foi entretanto regada por uma forte dose elitista e burguesa. A própria sociedade na qual vivia era em si mesma excludente, preconceituosa e misógina. Portanto, si eu quisesse orientar minha ação em direção das pessoas em margem da sociedade, eu teria que fazer violência comigo mesmo. Era necessario passar por um processo de destruturação e ter coragem de me lançar na luta pois o medo paraliza. O medo de ser criticado, o medo de perder minha imagem , o medo de perder o pedestal do poder e das aparências enfim o medo de me tornar um excluido entre os excluidos. Como consequência deste clima de medo e de incertezas nascia em mim o constrangimento e a angústia de não realizar aquilo que acreditava. Para ultrapassar esta teia de arranha foi necessário um empurrão forçando-me assim a minha entrada no jogo da vida.
Um dos empurrões veio da minha participação na juventude agrária católica (JAC), da qual participei ativamente e onde se aprendia a descobrir os problemas existentes (VER), a diagnosticar suas causas, seus pontos positivos e negativos (JULGAR) e a encontrar os meios de soluções necessários (AGIR). A JAC foi uma verdadeira escola de vida para muita gente do meio rural de Pedreiras. Os mais antigos devem se recordar deste meio poderoso de formação cristã, humana e social.
Um outro impulso recebido foi do contato que tive com as associações sindicais de diferentes meios de trabalho. Ao encontro destas pessoas ligadas e inseridas numa realidade dura e cruel do mundo do trabalho, fui descobrindo aos pouco o rosto da miséria, da descriminação e da servidão. Para mim, a descoberta desta realidade abria mais minha mente e o meu coração para acolher outras realidades ainda mais cruéis e inaceitaveis no plano cristão e humano. Foi justamente, em 1963, após ter realizado três dias de encontros com os membros do sindicato dos arrumadores, na rua da Independência, que uma jovem me lançou o seguinte desafio : «Porque o senhor não faz a mesma coisa com a gente»? Foi aí, neste momento, que recebi não um empurrão e sim um ponta pé e um grande apelo para tambem ir ao encontro das pessoas mais excluidas entre os excluidos, as mulheres mais marginalizadas, as minhas irmãs prostitutas. Un novo caminho se abria então na minha vida no qual continuo a trilhar até hoje com a mesma convicção e com a mesma esperança. Como diz Chico Buarque na canção «Sonho impossível» :…« e assim , seja là como for, vai ter fim a infinita aflição e o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão!»









